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''Causos'' da estrada: Triângulo amoroso

24 de September de 2008
''Causos'' da estrada: Triângulo amoroso
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Mário Sérgio Figueredo

João descobriu desde cedo sua paixão pelas motos e principalmente pela estrada, paixão avassaladora e incontrolável. Assim que completou 18 anos, a primeira providência foi tirar a sua carteira de habilitação e comprar a sua tão sonhada motocicleta. Pegou suas economias de vários anos e com um pouco de ajuda do papai, logo estava motorizado, claro, em duas rodas.
 
Aventureiro por natureza, João não teve medo de encarar a estrada e tomou gosto pela coisa. Todo final de semana ou feriado, lá estava o João e a sua querida, reluzente e maravilhosa moto, engolindo quilômetros de estrada.

Qualquer evento sem importância em outra cidade era motivo para o João viajar e mesmo no destino, difícil era ver a moto do João desligada. O desejo de andar de moto era quase uma compulsão.
 
Numa dessas viagens, João conheceu Maria. A afinidade entre ambos aflorou também de forma avassaladora e recíproca, amor à primeira vista. Para completar o quadro, João descobriu em Maria a companheira estradeira que tanto queria. Não se passaram nem seis meses e já estavam casados. Os três: João, Maria e a moto. União perfeita, relacionamento perfeito.
 
Com o passar do tempo, a quilometragem de estrada do trio aumentava vertiginosamente. Maria nunca dizia "não" para qualquer programa que significasse sair de moto, não importava a distância ou as condições meteorológicas, nem um temporal os prendia em casa.
 
Num belo dia, Maria acordou enjoada, achou que adoecera e procurou um médico. Que surpresa maravilhosa, logo a família aumentaria. No decorrer dos meses, a barriga de Maria também aumentava, tornando-se um complicador para manter a rotina motociclística que o casal estava acostumado.

No final da gravidez, tornou-se impossível andar na garupa da moto e João, grande companheiro e participativo, passou a ficar mais tempo em casa, solidarizando-se ao estado desconfortável que impedia Maria de fazer uma série de coisas até então fáceis.
 
Numa madrugada qualquer, aquela correria para a maternidade. Poucos momentos depois nascia Joãozinho, um garoto forte e saudável, enchendo de alegria os corações do casal, dos vovôs, dos tios, dos cunhados...
 
Se antes era a barriga de Maria que obrigava o casal a ficar em casa, agora era o Joãozinho, que requeria cuidados especiais de Maria e a impedia definitivamente de qualquer aventura motociclística, exigindo atenção 24 horas por dia.
 
João, conformado, não via uma estrada há muito tempo, muito mais tempo do que ele jamais imaginou conseguir suportar. Seus únicos momentos com sua "amada" eram a ida e a volta do trabalho que lamentavelmente era muito perto e não saciava a terrível sede de andar de moto.
 
Aos poucos, o seu limite de abstinência estava se aproximando. Sua alma clamava por uma estradazinha e os gritos do seu instinto aventureiro começaram a soar cada vez mais alto, tornando-se ensurdecedores.
 
Seu humor começou a mudar. João, antes uma pessoa afável e agradável, estava se tornando impaciente e intolerante e, para complicar mais ainda, começaram os desentendimentos com Maria, coisa que até então raramente ocorria. Passaram a ser freqüentes e por motivos banais as brigas do casal.
 
Não agüentando mais o stress, João começou a sair de moto sozinho, fazendo pequenos percursos, deixando Maria em casa, cuidando de Joãozinho, ignorando o sofrimento que essa mesma abstinência causava a ela.
 
Os passeios de João começaram a ficar cada vez mais longos, sempre sozinho, sem Maria que, conformada entendia a necessidade de João e procurava não brigar por este motivo, afinal quando ela o conhecera ele já tinha o vício da aventura e da estrada. E durante muito tempo foi assim.
 
Os anos foram passando, Maria, mãe dedicada, abdicou definitivamente da moto e da estrada porque nela não cabiam os três, ainda mais que a pouca idade de Joãozinho o impedia de andar na garupa.

Com Joãozinho maior, ficou mais fácil deixá-lo de vez em quando com a vovó e assim Maria podia matar a saudade em passeios curtinhos de moto. Estradas longas como ela adorava, não mais.
 
Joãozinho finalmente completou sete anos e a partir de então a legislação já permitia que ele andasse na garupa de motos. Para João, isso foi um presente dos deuses porque Joãozinho demonstrava ter herdado os genes paternos e, para a alegria do pai, dava a certeza que seria mais um motomaníaco.
 
Joãozinho passou a ser o companheiro estradeiro do pai, acompanhando-o para todo canto. Difícil o final de semana em que ambos não saboreassem vários quilômetros de asfalto. E Maria, coitada de Maria, boa dona-de-casa, mãe dedicada, conformava-se e ficava satisfeita em ver a felicidade do filho e o retorno do bom humor do marido. A paz voltava a reinar dentro de casa.
 
Ao completar 18 anos, com o incentivo do pai, Joãozinho também tirou sua carteira de motociclista e ganhou de João a sua primeira motocicleta. Com esse episódio, a garupa de João voltou a ficar livre e como Joãozinho agora tinha "rodas próprias" e não exigia mais tantos cuidados maternos, Maria voltou a ocupar o posto de garupa permanente de João.
 
Voltaram para a estrada, voltaram a viajar como antes, voltaram a ser felizes em poder desfrutar do prazer em fazer o que mais gostavam. Voltaram, principalmente, a namorar.
 
Num belo dia, Maria acordou enjoada. Não procurou um médico porque já conhecia aquele sintoma. Bem, deixa pra lá, senão a história vai se tornar muito longa. Mas asseguro que no final, viveram felizes para sempre.

Essa historinha fictícia é uma homenagem a todos nós pais e mães motociclistas. Mostra os desafios e os sacrifícios que fazemos por nossos filhos. Se for preciso, abdicamos de tudo que mais gostamos para cuidar e educar nossos rebentos, principalmente a mãe, a verdadeira mãe, que coloca a criação dos filhos acima de qualquer outra prioridade, seja ela qual for. Abdicamos até de nossas queridas motos, se necessário.

Abraços e até o próximo causo.

O “motonauta” Mário Sérgio Figueredo participou do Moto Repórter, canal de jornalismo participativo do MOTO.com.br. Para mandar sua notícia, clique aqui.



Fonte:
Moto Repórter

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Comentarios ( 12 )

isaias - /
postado em: 21/10/2008, 16:19:47

Mario, parabens pelo causo,tbem tenho filhos e realmente tem sentido tudo isso, abraço.
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Beto - /
postado em: 25/09/2008, 21:45:03

Mário, é encrível a semelhança dete texto com o que aconteceu em minha vida, na vedade posso dizer que foi exatamente igual. esta é minha vida! hoje tenho dois filhos , uma familia maravilhosa e espero ancioso o dia em que voltarei para as estradas com minha namorada ( esposa )! um grande abraço aos irmãos motociclistas.
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LOKOePOCO - /
postado em: 25/09/2008, 10:21:34

Caraca, se aquela da foto for a Maria, vixxxiiii, que moto que nada... Em vez de moto eu iria e fazer Joaoazinho todo dia...manha, tarde e noite. Que MOTO gostosa...
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Marco Bueno - /
postado em: 25/09/2008, 10:14:21

Parabens Mario, muito bom texto, bem elaborado e facil de ler. Eu tbm vivi alguma coisa parecida, comeceu tbm cedo mas nunca tive uma Maria para me acompanhar. Mas esta por sua vez, ficou muitas vezes em casa cuidando dos filhos para que eu pudesse fazer aquela trilha de domingo ou uma esticadinha com o pessoal da estrada. Mas este trabalho dela claro nao foi em vao. Hoje ela levou metade de tudo que tenho, a casa, um carro e o pior, os filhos tambem...rsss
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carlos cc - /
postado em: 25/09/2008, 08:46:36

Excelente texto mário! A emoção correu solta aqui, fico até imaginando quando chegar a minha vez. vai ser difícil............hehe
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Anderson Lima - /
postado em: 25/09/2008, 08:40:32

Minha história é melhor. Não tenho filhos para que eu não seja impedido de andar de moto.
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Renato - /
postado em: 25/09/2008, 07:14:36

Peço desculpas aos amigos, revendo meu comentário notei alguns equívocos. Abraços a todos.
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Edu CruzdeFerro - /
postado em: 24/09/2008, 21:12:57

Esse "causo" com certeza conta um pouquinho a história de todos nós,motociclistas, que em algum momento da vida teve de abrir mão de sua paixão (moto) em virtude de outros compromissos. é sempre muito legal saber que eu não sou o único.
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Renato - /
postado em: 24/09/2008, 19:50:13

Mário Sérgio, mais uma vez com brilhantismo você solta de sua veia literária como sempre texto agradável de se ler. Com propriedade que lhe peculiar: traça o perfil de vários "Joaõs" motociclista apaixonados por este mundo a fora.Seria muito bom que os frequentadores de MOTO.com.br se espelhasem no Mestre para nos brindar com seriedade e responsabilidade nos comentátios etc.Grande Mário naõ tenho adjetivos, parabéns seria pouco,siga em frente, estaremos aguardando.Abraços
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Jorge Aragão - /
postado em: 24/09/2008, 19:46:53

Bela matéria Mário... Quando comecei a ler fiz uma viagem no tempo e lembrei de muita coisa que aconteceu comigo por causa das motos. Realmente para todos que tem esta paixão, fica difícil abrir mão dela, mas a vida apronta algumas supresas, e aí... continue assim, vc está caminho certo!!! PARABÉNS!
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edison machado - /
postado em: 24/09/2008, 18:19:57

Eu tambem tive uma situação interessante, só que minha mulher não me acompanhava porque ando com moto esportiva corro um pouco demais para o gosto dela. Um belo dia ela me falou: ou eu ou essa m.e.r.d.a. de moto. Eu hoje sou um feliz usuario de minha srad e solteiro.
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Junior Mayer - /
postado em: 24/09/2008, 16:50:10

Fiquei sabendo que o texto era para mim, haja vista que serei papai em breve (quer dizer, acho que será em breve, pois a patroa parou de tomar contraceptivo no último fim de semana). Aí, quando li, teve que rolar uma comoção aqui, com uma lágrima. O Mário escreve muito bem. Não sei porque esse cara não é jornalista. Então, escreve algo em minha homenagem, fico felicíssimo mesmo. Valeu Marião! Aquele abraço!
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